Esses cientistas querem usar a realidade virtual para reinventar a luta contra o câncer

Por Renato Bazan, editor da revista Mundo 360

Usar a realidade virtual para auxiliar a medicina é uma proposta que começou cedo no campo acadêmico, mas há quem esqueça desse uso diante de tantas novidades. A tecnologia está evoluindo rápido, e agora dois diferentes times de pesquisadores querem usar os avanços recentes da RV para combater o câncer.

A ideia central é muito similar em ambos os casos: reconstruir o tumor em três dimensões, com o máximo de complexidade possível, para que se possa avaliá-los sem a necessidade de procedimentos invasivos no paciente. É o que se costuma chamar de “biologia digital” – a reprodução fiel de estruturas e processos biológicos no computador. O uso da realidade virtual, especificamente, seria o de visualizar esses diagramas com o máximo de fidelidade, e até mesmo entrar dentro dele para observar a relação entre as células.

Um novo olhar para o câncer

O primeiro time, dos laboratórios do MIT (Massachussets Institute of Technology) nos EUA, é liderado pelo professor de bioengenharia e neurocientista Ed Boyden, que recebeu um prêmio de 24 milhões de dólares para investir em pesquisa clínica. O prêmio Cancer Research UK Grand Challenge Award, de uma instituição inglesa, criou a oportunidade para que eles unissem o procedimento tradicional de biópsia com novas tecnologias de escaneamento 3D.

“Há muita gente vasculhando a composição genética dos tumores, mas nós queremos ir além disso. O que nós queremos é saber quais são as fraquezas do tumor, e o que o faz crescer”, explicou Boyden em entrevista ao Boston Herald. Para tal, o plano é ampliar o procedimento normal de biópsia, fatiando o tumor em finíssimas camadas que seriam então mapeadas digitalmente. Ao sobrepô-las dentro de um ambiente digital, o tumor seria apresentado em uma complexidade inédita.

O cientista vê uma grande oportunidade na ferramenta, muito mais eficiente que imagens em duas dimensões. Além de poder olhar através do tumor, o modelo digital poderia ser transmitido pela Internet para qualquer lugar do mundo. “Nós poderíamos apontar com precisão o que precisássemos para destruir o câncer, e teríamos melhores diagnósticos”.

Com cinco anos de pesquisa sobre o tema, Boyden diz estar prestes a apresentar uma tecnologia completa, mas não definiu data. Ele dá o conselho para inovar: “o mais importante é simplesmente ter uma visão mais afastada do campo. É daí que as ideias radicais vêm”.

Do outro lado do Atlântico

Há ainda um segundo time buscando a relação entre a realidade virtual e o tratamento do câncer. Causaram burburinho recente por ter vencido o mesmo Cancer Research UK Grand Challenge Award. Eles estão na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e têm ambições ainda maiores que as do MIT.

Sob as ordens do professor Greg Hannon, pesquisadores ingleses, americanos, suíços, canadenses e irlandeses tentarão recriar diversos tumores de mama em 3D – reproduzindo inclusive sua fisiologia interna, seus vasos sanguíneos e suas membranas. Isso permitirá aos cientistas usar a realidade virtual para observar todo o funcionamento interno do tumor de uma forma inconcebível por métodos tradicionais. O escaneamento proposto é bem similar àquele do MIT.

“Podemos dar informação muito mais completa aos médicos se apresentarmos esses objetos em detalhes mais ricos. Estamos medindo coisas que nunca foram medidas antes, e em uma escala que nunca foi utilizada”, explicou Hannon ao Digital Trends. “Queremos alguns conjuntos de dados de 100 mil células já no ano que vem, mas para criar algo útil teremos que fazer milhares de análises de tumor. Eu acredito que veremos informações significativas daqui a uns três anos”.

O vídeo abaixo, editado pela Cancer Research UK, mostra o cotidiano da equipe recém-formada em Cambridge.

O desafio é enorme, mas conta um orçamento também inédito para uma pesquisa na área: 40 milhões de libras (mais de R$153 milhões!) ao longo de cinco anos. Se tiverem sucesso, criarão não apenas uma ferramenta de diagnóstico sem precedentes, mas algo que poderá ser amplamente utilizado em processos de educação na medicina, aumentando a familiaridade de futuros oncologistas (e seus pacientes) com as estruturas do câncer.

Veja a demonstração preliminar que a equipe de Hannon criou para buscar financiamento do projeto:

O resultado final seria bastante mais detalhado que o do vídeo.

“Eu não sabia muito sobre [realidade virtual quando comecei o projeto]. Pensei que usaríamos projetores 3D, não tinha ideia de como a tecnologia de VR para consumidores havia avançado. Aí eu tive uma conversa com um desenvolvedor e ele me mostrou como a realidade virtual tinha mudado em dois ou três anos. Ele sugeriu que eu entrasse em contato com Owen Harris, um professor de VR em Dublin, e acabamos trabalhando juntos. É assim que o projeto começou”, contou Hannon.

O que veio depois é mais uma história emocionante dos possíveis usos da realidade virtual, seja na Inglaterra, nos Estados Unidos ou no Brasil. Como esses, muitos outros projetos surgirão para salvar e mudar vidas – e nós falaremos deles aqui, na Mundo 360.

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