Está cansado de Pokémon GO? Ele é só um aperitivo

Por Renato Bazan, colaborador da Mundo360

Texto originalmente publicado no site Drops de Jogos

Participei de um Drops Debate em que pude dividir uma conversa animada com Pedro Zambarda, Anna Gabriela Coelho e André Fogaça sobre as consequências do lançamento de Pokémon GO. Não faltou nada para completar a pintura surrealista: Gente invadindo delegacias, uma pessoa sem inteligência que jogou o carro numa árvore porque jogava enquanto dirigia, estouros de manadas humanas às 23h para capturar um Vaporeon, fora um indivíduo que desistiu do emprego para se tornar o melhor treinador, como nunca ninguém foi.

O lançamento do jogo abalou as estruturas da moçada.

Por todo o vozerio nas redes sociais, não faltou gente para dizer que já está de saco cheio da modinha, e não sem razão. Mas peço aqui que prestemos atenção a um caso particular na Guatemala, que não pertence ao terreno carnavalesco: O do jovem que foi morto ao sair para caçar Pokémons durante a noite, aparentemente sem motivo. Na companhia do primo, ele andava ao lado de uma ferrovia quando um atirador desconhecido o alvejou. Não se sabe se o jogo esteve envolvido de alguma forma no incidente, mas foi no mínimo a motivação para quem o garoto deixasse a casa.

Não foi a única experiência traumática relacionada ao game, e nem a primeira. O acúmulo delas, no entanto, começa a trazer para a superfície uma discussão que os pioneiros da realidade aumentada já conhecem há um bom tempo. Ela versa sobre a relação das pessoas com o espaço ao redor delas.

Assim como o surgimento da TV nos fez mudar a distribuição de móveis na sala de estar, a realidade aumentada desafia as noções de espaço público quando toma a cidade como tela. A provocação é inevitável: Quando os símbolos e dados conseguem se libertar de suas âncoras de silício e andar pelo nosso plano físico, será possível que continuemos a enxergar as ruas e parques como espaços inertes? Não serão palcos a serem ocupados, livros de colorir feitos de grama e concreto?

Evidente que a tecnologia para que cheguemos a este ponto está em estágio experimental e, portanto, longe do alcance do público, mas Pokémon GO é um excelente laboratório para os estranhos comportamentos que nossos filhos e netos acharão normais. O experimento foi tão bem sucedido que provocou até reações políticas por onde passou: Enquanto nos EUA um deputado já começou a falar em leis específicas para a apropriação do espaço virtual de Nova York, na Bosnia uma ONG redobrou os apelos pela limpeza dos campos minados que restam no país, decorrentes da guerra que devastou a região nos anos 90.

Estes dois retratos são, no fundo, ramificações do mesmo conflito. Diferente do espaço digital da Internet, que se transforma ao gosto do freguês, a realidade aumentada traz consigo uma dureza que nos obriga a repensar a forma como nos relacionamos com o espaço. Se cada faixa de pedestre nos leva a uma nova experiência, os carros deixam de ser mera solução de transporte para virarem ameaças letais no processo de aprendizado.

A própria lógica do tráfego ficará na berlinda à medida em que mais gente adotar esse meio de comunicação. O mesmo pode ser imaginado para as pilhas de lixo não recolhidas ou as regiões em que a segurança pública é ruim – se a cidade retoma seu papel como espaço da relações humanas, não podemos mais ignorar seus problemas e desafios.

Levando esse raciocínio ao limite, a realidade aumentada revela um potencial para que repensemos o espaço público – terá sido a morte de Jerson Lopez de Leon culpa de Pokémon GO ou de toda a sociedade, que descuidou de sua segurança? A menina atropelada nos EUA o foi apenas por descuido, ou serão nossas cidades dedicadas demais à liberdade dos carros?

Como podemos mudar isso?

Esses e outro dilemas deixarão em breve o clubinho dos urbanistas e cairão como bombas nos papos de boteco, à medida em que a RA se popularizar. Junto com eles, surgirão mais e mais comportamentos esquisitos, dignos de qualquer boa ficção cyberpunk.

Se você está achando estranho o que acontece agora com Pokémon GO, é melhor ir se preparando para mais coisas.

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